" Todos aqueles que detêm ou são portadores, de um conhecimento específico notável, resquício do passado ou formulado no presente, capaz de reforçar a imagem e o potencial regional em particular nas artes e saberes de tradição"
" O notável é geralmente reconhecido à escala local, tantas vezes apenas na sua rua ou lugar, praticando por vezes uma profissão caída em desuso ou desvalorizada"
" São veículo para a promoção de passagem e conhecimentos entre gerações, integrando os valores e saberes tradicionais, em particular as artes e ofícios nas aprendizagens e promoções locais, na cultura, nomeadamente na escola, no lazer e no turismo".
" Numa perspectiva propositiva, dinâmica, geradora de autoestima e de novas oportunidades de emprego em espaço rural, nomeadamente na área do turismo e da cultura"
Breve Introdução
O estudo das Artes ditas tradicionais, tem sido uma fonte de inspiração permanente da OCRE, aliando a curiosidade, à tipicidade, ao sinal dos tempos, às oportunidades de futuro.
Na OCRE entendemos a Tradição, não apenas como o resquício de passado, mas essencialmente como a forma, mais ou menos consciente, feita de valores intangíveis e produções materiais, ligados a recursos e histórias localizaveis, através dos quais uma determinada comunidade quer ser lembrada no futuro.
De facto é convicção da OCRE que o Desenvolvimento local e regional, passará pelo desenho implementação de acções e estratégias em proximidade, capazes numa primeira fase de valorizar os detentores de conhecimentos e artes ainda hoje tão subestimadas localmente.Numa segunda, assegurado o reconhecimento local, apostar na passagem de conhecimentos e refuncionalização entre gerações. De forma continuada apoiar e revitalizar a auto-estima destes notáveis, não na óptica saudosista ou assistencialista mas sim no respeito pela nossa cultura feita de pessoas e experiências particulares.
Os detentores destes saberes imateriais constituem igualmente a forma de conhecermos as vidas de outros tempos, determinantes para os sentidos com propriedade para o futuro, no Alto Alentejo.
O Capacidade de ter Visão de futuro é proporcional ao conhecimento e valorização do passado. Não no sentido estático ou saudosista mas sim de forma operativa, geradora de confiança e enraizamento.
Sobre os Notáveis muito há a dizer. Enquanto temos tempo. Ou nos derem do tempo deles. A OCRE continua a investir no seu levantamento tendo actualmente elencados notáveis em seis concelhos nas categorias abaixo referidas:
Arte de Queijar Arte de trabalhar a Cortiça e/ou madeira Arte Pastoril Bolaria, doçaria e padaria Bonequeiros de barro e de madeira Bordadeiras e Trapologia Regional Canteiros de pedra Cesteiros Conhecedores de técnicas construtivas tradicionais Construtores e Muros de pedra seca Construtores de embarcações Empalhadores Empalhadores em bunho Entalhadores de corno Fazedores de aguardente e licores Ferradores Ferro forjado e/ou estanho Mestres, Telhadores e Botadores Moleiros Músicos e bailadores Oleiros e ceramistas Pessoas com histórias de vida relevantes Pintores populares Poetas populares e contadores de histórias Produtores de cal Recolectores de fungos e ervas alimentares, aromáticas e medicinais Salsicharia e enchidos Tascadeiras Tecedeiras Tosquiadores Trabalho em vestuário e calçado de pele Vedores Vidas peculiares
Do território dos notáveis
O Alto Alentejo é um território que apresenta um conjunto de características rurais em que a modernidade e a tradição convivem lado a lado de um modo por vezes quase conflituante. É neste contexto que se chama a atenção para a importância dos "notáveis anónimos". Definimos Notáveis Anónimos os indivíduos possuidores de conhecimentos tradicionais já em desuso ou em vias de extinção, no campo dos saberes e fazeres. Na OCRE acreditamos que a função destes é fundamental, para o desenvolvimento, estabelecendo a ponte entre o antigo e o moderno, no campo dos valores e das gerações. Se o desenvolvimento pressupõe estratégia de operacionalização dos recursos locais então certamente que o desenvolvimento do Norte Alentejo tem necessáriamente de se basear na refuncionalização destas competências.
Os "notáveis anónimos" elencados pela OCRE, encontram-se dispersos nos concelhos de Arronches, Castelo de Vide, Crato, Nisa, Marvão ePortalegre, área prioritária de acção da Associação.
Estão actualmente elencados cerca de cinco centenas de " notáveis" por parte da Associação.
Numa análise um pouco mais detalhada, incidindo em alguns dos concelhos estudados, detectaram-se cerca de quatro dezenas de"notáveis anónimos" no concelho de Arronches. Nove dos quais trabalham a madeira e a cortiça; outros nove dedicam-se à produção e confecção artesanal ( queijos, enchidos, vinho, aguardente, licores, pão, doçaria) e oito aos têxteis. A produção de artefactos de madeira e cortiça sobressaem neste concelho, os quais constituem uma mais valia complementar à recolha de cortiça para a venda à Indústria corticeira. Neste aspecto o artesanato apresenta um papel maior, pelo reintrodução de matérias primas rejeitadas pelos circuitos industriais, através da valorização de competências ancoradas em funções tradicionais. A qualidade da cortiça tem vindo a decair devido às limitações contrárias á sua exploração tradicional descontinuada , bem como devido ao facto do trabalho intensivo em força humana estar a ser substituído progressivamente pelo recurso a máquinas.
A arte têxtil é outra tipologia que se distingue em todos os concelhos em análise, uma vez que a produção têxtil possui uma enorme carga histórica e simbólica.
No concelho de Castelo de Vide, a arte de trabalhar a madeira e a cortiça e a arte têxtil assumem, também, um papel predominante. Não obstante, o ferro forjado ou fundido é uma das mestrias referentes nesta zona. Esta arte está fortemente ligada aos instrumentos de trabalho bem como à produção artística- decorativa. Os artífices do estanho e do cobre, os cutileiros, os chocalheiros e os ferreiros asseguraram a passagem das características da arte de trabalhar o ferro às gerações actuais.há notícia de gente nova que conhece as artes mas não as efectiva. Muito embora os conhecimentos existam " nas pessoas", estas artes não fogem à regra estando a cair em desuso. Os bonecos entalhdos em madeira ainda se fazem. Contudo perdeu-se a "arte da Pinela"entretanto falecida, dos bonecos em barro, ou a pintura naif.Da salsicharia de Castelo de vide, resta apenas uma memória inquieta da sua importância enquanto industria local importante, mas temos notícia de muitos detentores destes conhecimentos.
No concelho do Crato sobressaiem, para além das actividades ligadas à madeira, cortiça e arte têxtil, a arte da cerâmica que ocupa actualmente dezoito indivíduos e da transformação da pedra, a que se dedicam nove Notáveis. Relativamente às actividades ligadas ao ferro, importa referir que apenas se encontram duas pessoas dedicadas a esta mestria no Concelho do Crato, concelho com um passado ligado a este recurso. Já o barro é uma matéria-prima que encontra muitos adeptos nesta zona, devido ao facto de ser um material abundante e de elevada qualidade, para além de bem enraizado no concelho ( lembre-se os Barros de Flor da Rosa...)
No concelho de Nisa, as actividades ligadas ao barro têm, também, grande visibilidade. Consequência disso é o prestigio da Olaria Nisense, em particular o Barro Pedrado, cerâmica decorada com pedaços de quartezito. Já as actividades ligadas ao têxtil (alinhavados) não lhe ficam atrás. Não obstante, existe um número considerável de indivíduos que expandiram os seus saberes e competências tradicionais a outras áreas, tais como: o fabrico de redes, a arte de trabalhar o vidro, a arte de trabalhar os metais, os músicos e os bailadores. Se algumas delas constituiam no passado formas de vida profissional, outras relacionam-se com o espaço lúdico da vida, resquicios de uma época onde o terreiro era o centro de convívio e a vizinhança os parceiros da festa !
Estas artes e ofícios não têm merecido a atenção desejada. Muitos dos saberes fazeres são realizados nas horas vagas como forma e ocupação do tempo livre. Esta realidade deve-se sobretudo ao facto de terem caído em desuso certas funções de produção inerentes aos conhecimentos detidos pelos que hoje hoje chamamos de Notáveis Anónimos. Muitos viram-se obrigados a abandonar a sua arte e a ingressar noutras áreas que lhes proporcionam melhores condições económicas e laborais.A reforçar esta questão, nem a inovação tecnológica favoreceu a continuidade destes ofícios nem o despreso e a substimação destes valores no campo da representação social, os destacou como potenciais para o desenvolvimento.
Nos concelhos de Marvão e de Portalegre sobressaem os labores associados à produção e confecção artesanal de bens alimentares. Marvão, zona onde abundam castanheiros, visitada anualmente por turistas nacionais e estrangeiros por altura da festa da castanha, apresenta um a série de artes inerentes ao recurso. Destacam-se a cestaria em castanho (... o vime tem vindo a desaparecer...), os bordados em casca de castanha, bem como toda a gastronomia associada. A festa referida acima, desenvolve-se em torno do castanheiro e da castanha.Do artesanato decorativo aos pratos tradicionais, doçaria e licores. Esta é uma forma de revisitar o passado em moldes modernos, revertendo a tradição e o entorno magnífico do castelo para uma estratégia pontual de desenvolvimento local. A castanha constitui ainda hoje fonte de rendimento de muitas famílias, em complemento de outros rendimentos formais . Para além disso, Marvão tem forte tradição em cestaria de castanho, sendo a sua maior expressão na Portagem. Da Portagem saíram outrora as canastas para as varinas e os padeiros em Lisboa.
Relativamente ao perfil dos Notáveis Anónimos, é de salientar que a maioria tem mais de 70 anos de idade, constituindo uma população extremamente envelhecida, detentora de baixas qualificações escolares formais não possuindo uma aprendizagem sistematizada. Estas competências, longe de serem reconhecidas, são vistas apenas como " virtudes" pessoais. Importa, ainda, referir que estes Notáveis, são predominantemente homens.
De um modo geral, salientamos aqui alguns aspectos que condicionam os ofícios dos Notáveis Anónimos:
- Saberes tradicionais sentidos como sinais de pobreza de outros tempos;
- Desinteresse de novos interessados, de gerações mais jovens, em continuar determinado ofício ou arte;
- Quebra dos vínculos familiares tradicionais, onde as profissões e saberes eram passadas entre gerações;
- Actividades pouco atractivas devido aos rendimentos incertos e condições de trabalho;
- Sobre valorização de outras actividades no campo dos serviços;
- Falta de canais para o escoamento de produtos;
- Falta de apoios técnicos, logísticos e financeiros adequados à especificidade destes Notáveis;
- Não articulação entre o ensino formal e informal e consequentemente não reconhecimento do interesse destas funções em termos de emprego;
- Informação deficiente ao nível de projectos de apoio, revitalização e intervenção.
Os Saberes fazer tradicionais são sem dúvida uma mais-valia fundamental para o desenvolvimento local e regional. Permitem o encontro entre uma geração que tem " tempo para ensinar" e " outra " com tempo para aprender".
Permitem recentrar a estratégia que possibilite o encontro entre o rural e o urbano. Tem sem dúvida potencial na criação de novas oportunidades, pela valorização do que somos, sabemos e fazemos melhor que ninguém, em termos locais.
Aliar o conhecimento tradicional ao reconhecimento público propiciando uma maior visibilidade ao trabalho destes "notáveis anónimos", constitui uma forma de rentabilizar a arte dita tradicional, propiciando mais valias em termos de rendimentos complementares a uma população envelhecida bem como a possibilidade de criação de novos nichos de negócio, úteis em particular para extractos de população mais jovem.